Nos próximos dias 23 e 24 de abril, Silvio Ferraz dará no IEB de Coimbra um curso breve sobre música contemporânea brasileira com o título A VIA DUPLA ENTRE A VANGUARDA MUSICAL PAULISTA E A POESIA CONCRETA.
Na foto com que ilustramos este post, da esquerda para a direita, podem-se ver Silvio Ferraz, Gilberto Mendes, F. George Olivier Toni, e Eduardo Alvares.
SILVIO FERRAZ (1959), é Professor Titular (Catedrático) da cadeira de Composição da Universidade de São Paulo (USP). Entre 1998 e 2013 foi professor na Universidade de Campinas e Católica de São Paulo, professor visitante junto do CESEM e da Universidade de Évora (biénio 2022-2023). Foi diretor artístico e pedagógico do Festival de Campos do Jordão, (2009-2010), diretor pedagógico da Escola de Música do Estado de São Paulo (2010), fundador e diretor artístico da Camerata Aberta (2010). Doutor em Comunicação e Semiótica, é autor dos livros Música e Repetição: aspectos da questão da diferença na música contemporânea (Educ, 1997), Livro das Sonoridades (7Letras, 2004) e Tempo-música: as colisões de Chronos-Caos (Móbile, 2023). Realizou seus estudos de composição com Willy Correa de Oliveira, Gilberto Mendes, Brian Ferneyhough e Gérard Grisey. Desde 1985, tem participado como compositor de mostras e festivais de música contemporânea, com obras realizadas no Brasil e no exterior, por ensembles como Grupo Novo Horizonte, Camerata Aberta e Abstrai Ensemble (Brasil), Arditti String Quartet e The Nash Ensemble (Inglaterra), Ensemble Contrechamps (Suiça), Ictus e Het Spectra (Bélgica), New York New Music Ensemble (EUA). Pesquisador do CNPQ, desenvolve projetos no campo da composição musical contemporânea, com ênfase no estudo das implicações dos conceitos de tempo e energia na música do final do século XX e séc. XXI. Com trabalho e produção premiadas com Prémio Vitae (2003), Prémio Zeferino Vaz (Unicamp, 2011), pesquisador da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Bolsista de Produtividade PQ1 do CNPQ.
Eis um resumo do curso, por Silvio Ferraz:
Na década de 1950 os irmãos Haroldo e Augusto de Campos realizaram viagem à Europa de onde voltaram ao Brasil trazendo as primeiras partituras e long-plays da chamada vanguarda musical europeia, a Neue Musik, de Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez, Bruno Maderna, Luigi Nono. Para os irmãos Campos e o colega Décio Pignatari, tais compositores refletiam no domínio musical aquilo que procuravam para a poesia que vinham cunhando: a poesia concreta que aparecia assim denominada na revista Noigandres em 1955. Foi esse material, trazido pelos poetas, que chegou aos ouvidos de um pequeno grupo de compositores – na sua maioria vivendo na cidade portuária de Santos, no estado de São Paulo – cujos expoentes seriam Gilberto Mendes, Willy Correa de Oliveira, Damiano Cozzella e Rogério Duprat. O grupo, formado em 1961 escreveria seu primeiro manifesto em 1963, o Manifesto Música Nova. O projeto poético do grupo reunia não apenas a Neue Musik, como também os modelos de construção característicos da Poesia Foncreta dos Campos e Pignatari, ao que ainda cruzavam as importantes experimentações da Musique Concrète do Groupe de Recherche Musicale (GRM-ORTF-Paris) de Pierre Schaeffer e da Elektronische Musik desenvolvida na WDR (Westdeutcher Rundfunk) de Colónia (Alemanha).
Sem a facilidade dos dispositivos eletrónicos da WDR, ORTF, RAI (apoio importante aos compositores italianos), e sequer o apoio dos músicos brasileiros que ainda tateavam em engolir as propostas da Música Viva de Eunice Katunda, Claudio Santoro e Guerra-Peixe, o recurso mais à mão era o coro amador. Foi assim que uma série de obras foram realizadas para vozes, as quais como lembra Gilberto Mendes permitiam realizar em solo brasileiro experimentações tão radicais quanto aquelas realizadas nos estúdios europeus. De um lado baseados na estruturação musical da Neue Musik e na estética de sonoridade da Musique Concrète, de outro era no modelo estrutural da poesia concreta que, sobretudo Gilberto e Willy, moldaram composições musicais como Vai e Vem, Nasce Morre, Beba Coca Cola, Vivian a Cartesiana.
Professores de composição na USP entre 1975 e a primeira década do século XXI, os dois compositores foram responsáveis pela formação técnica e poética de diversas gerações de compositores e músicos instrumentistas. Dessa geração trago aqui dois exemplos, por comodidade minha própria música que, como aluno de Willy e Gilberto, escrevi para coro e voz ao longo dos primeiros anos de minha formação, e a de Tatiana Catanzaro, uma das últimas alunas de Willy na USP, e que acabou acrescentando à poética da música experimental paulista as estratégias composicionais do pensamento espectral – com intensa aproximação aos recursos computacionais disponíveis a partir dos ano 1990, sobretudo com ferramentas desenvolvidas no IRCAM (Paris).
Para estas aulas proponho um rápido apanhado histórico e a apresentação analítica de obras de Willy, Gilberto, Tatiana e eu próprio – no caso envolvendo um outro poeta relevante do grupo dos concretistas, o obstetra, poeta e gráfico Edgard Braga em suas séries Tatuagens e Algo.
O curso é uma iniciativa conjunta do Instituto de Estudos Brasileiros, da Secção de Estudos Artísticos e do Instituto de Estudos Filosóficos da FLUC e ainda do Grupo de Práticas Artísticas do Centro de Estudos Interdisciplinares CEIS20.
Voltaremos a informar sobre o curso de Silvio Ferraz em data oportuna.